Como parar de fumar: tudo sobre a dependência à nicotina

Por Mariana Castro em 23/03/2018

Ao falar em tabaco, é preciso chamar atenção para o fato de que o tabagismo é, atualmente, a principal causa de morte evitável do mundo. Ele é fator de risco para diversas doenças crônicas, como câncer, doenças pulmonares e cardiovasculares. É fundamental esclarecer que não há quantidade segura para seu uso e que sua fumaça coloca sob seus riscos, inclusive, as pessoas que estão em volta do fumante. É por isso que motivos para parar de fumar não faltam.

A nicotina é a substância encontrada em todos os derivados do tabaco, como cigarro, charuto, cachimbo, cigarro de palha, narguilé, dentre outros. A dependência a ela está inclusa na Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde. “Ao atingir o cérebro, ela libera neurotransmissores responsáveis por sensações de prazer”, explica Aline Carvalho, técnica da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca – Instituto Nacional do Câncer.

Essa alteração no sistema nervoso central, que modifica o estado emocional e comportamental do usuário, pode induzir ao abuso e dependência. “O quadro de dependência resulta em tolerância, que é a necessidade de uso cada vez maior para atingir os mesmos níveis de satisfação, além de abstinência, ou sintomas desagradáveis quando se interrompe o uso da substância, e comportamento compulsivo para consumir a droga”, alerta Aline.

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Além do aspecto físico da dependência, ela também possui os aspectos emocionais ou psicológicos, e comportamentais. “O emocional ou psicológico envolve ligações estabelecidas entre o ato de fumar e determinados sentimentos ou emoções, como tristeza, raiva e ansiedade”, esclarece a especialista. “O comportamental diz respeito aos condicionamentos, ou seja, à ligação entre o ato de fumar e determinados eventos do cotidiano, como fumar após o café ou ao assistir televisão, por exemplo”, continua ela.

Qualquer forma de consumir tabaco cria dependência, inclusive a de mascar. A mais intensa, entretanto, é através do fumo. O número de cigarros fumados e a hora em que se fuma o primeiro cigarro do dia são alguns dos parâmetros utilizados para avaliar o grau de dependência. “A avaliação do grau de dependência à nicotina pode ser feita pelo famoso teste de Fagerstrom”, revela Marco Antônio de Moraes, especialista em tabagismo da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Segundo ele, os níveis de nicotino-dependência são divididos de acordo com os pontos obtidos no teste, nos seguintes níveis:

Fraca nicotino-dependência: leves sintomas da síndrome de abstinência. Nesta fase, os fumantes raramente precisam de ajuda para abandonar o tabaco.
Certo grau de nicotino dependência: nesta fase, podem ocorrer sintomas mais acentuados de abstinência, mas o abandono espontâneo do tabaco ainda ocorre com alguma frequência.
Nicotino-dependência acima da média: francos sintomas da síndrome de abstinência, mas o tratamento costuma obter resultados positivos.
Nicotino-dependência intensa: os sintomas da síndrome de abstinência são intensos. Os danos do tabagismo à saúde são elevados neste nível e o tratamento deve ser mais enérgico e prolongado.
Nicotina-dependência incoersível: o quadro da síndrome de abstinência nesta fase é grave. É essencial a ajuda psicológica e o tratamento farmacológico com vários medicamentos associados.

Como parar de fumar?

De acordo com o nível de dependência, algumas pessoas conseguem parar de fumar sozinhas. Em todo caso, é importante procurar um profissional de saúde para auxiliar neste processo, uma vez que são vários os fatores que determinam o melhor método para a cessação daquele indivíduo. Um desses fatores é o nível de dependência, mas há também a presença de doenças ou condições especiais, faixa etária, situação familiar e profissional, dentre outros.

Existem duas grandes abordagens para parar de fumar: a abordagem cognitiva-comportamental e a medicamentosa. Em São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) segue este protocolo no Programa Nacional de Controle do Tabagismo. “O tratamento intensivo contempla quatro encontros semanais com foco terapêutico”, explica Marta Maria Pereira Nunes, coordenadora do Programa Municipal de Combate ao Tabagismo do SUS.

Mudanças de hábitos são fundamentais para parar com o tabagismo. Priorizar frutas, legumes e verduras, assim como desenvolver a prática de atividades físicas cotidianas e exercícios de relaxamento, são comportamentos altamente recomendados. Evitar o consumo de cafés e bebidas alcoólicas também, além das situações cotidianas associadas ao ato de fumar. Quando não for possível evitar essas situações, é importante planejar previamente o que fazer em vez de fumar.

A dependência resulta em tolerância ao cigarro, que é a necessidade de uso cada vez maior para atingir os mesmos níveis de satisfação

A auto-observação é importante para ajudar o paciente a identificar os momentos que fuma e que sentimentos estão por trás dessa ação. “É um momento excelente para que ele observe se fuma mais ou menos do que pensa, e até perceber que cigarros ele não precisaria fumar”, explica Marta. Outros aspectos trabalhados no Programa Nacional de Controle do Tabagismo são o autocontrole, o preparo para solucionar problemas sem o cigarro e a troca de experiências e estimulação positiva entre os participantes.

O uso de medicamentos é a última escolha, como apoio aos casos mais complexos. Para o tratamento das pessoas tabagistas, o SUS disponibiliza terapia de reposição de nicotina, adesivo transdérmico, goma de mascar, pastilha e cloridrato de bupropiona comprimido.

Segundo várias pesquisas já realizadas, a parada abrupta é mais indicada que a parada gradual. “Se for a opção escolhida, a redução gradual deve ser planejada de forma que não leve mais de duas semanas para que o fumante fume seu último cigarro”, aconselha Marcos, que é diretor técnico de saúde da Divisão de Doenças Crônicas.

Outras dicas:

  • Planejar uma data (dia D) para parar de fumar e se preparar para este dia;
  • Conhecer todos os sintomas da síndrome de abstinência, sua duração e principais dicas de como vencê-la;
  • Identificar os principais medos e barreiras na tentativa de parar de fumar a fim de melhor controlar estes fatores;
  • Rever o passado e identificar o que ajudou e o que dificultou parar de fumar em tentativas anteriores;
  • Avisar aos parentes e amigos mais próximos sobre a decisão de parar de fumar e, preferencialmente, eleger uma dessas pessoas para ajudá-lo nos momentos mais difíceis;
  • Se informar sobre os benefícios de parar de fumar;

Como lidar com a abstinência?

Apesar de ser legalizada, a nicotina atua no sistema nervoso central assim como a cocaína, heroína ou álcool, por exemplo. Portanto, é normal que os primeiros dias sem cigarro sejam mais difíceis, mas isso tende a diminuir com o tempo. Devido à Síndrome de Abstinência, é possível experienciar sintomas como alteração de humor, ansiedade, cefaleia, cansaço, dificuldade de concentração, tremor, sudorese fria, aumento do apetite, insônia, irritabilidade, modificação do hábito intestinal e secreção nasal.

Esses sintomas se manifestam nos fumantes de diferentes formas, podendo aparecer quase em sua totalidade ou apenas alguns deles. Eles tendem a desaparecer dentro de uma ou duas semanas, podendo chegar a um mês em alguns casos. “Alguns dos sintomas, como dor de cabeça, tonteira e tosse, são sinais do restabelecimento do organismo”, explica Aline. O mais intenso e mais difícil de lidar é a chamada “fissura”, que é a grande vontade de fumar. “Apesar de aparecer com mais frequência do que os outros, é importante saber que esse sintoma não dura mais do que cinco minutos”, esclarece a especialista.

Um hábito positivo para parar de fumar é se reunir com pessoas que estão no mesmo processo, para trocar experiências e estimulação

“Para fugir das recaídas, recomenda-se evitar a convivência com outros fumantes nas primeiras semanas”, explicou Marco. “Mude o foco da vontade de acender o cigarro para algo que traga prazer ao fumante, como tirar férias, viajar ou apreciar uma paisagem, por exemplo”. Algumas outras dicas podem ajudar, como chupar gelo, escovar os dentes, beber água gelada, comer uma fruta, manter as mãos ocupadas com um elástico, rabiscar alguma coisa ou manusear pequenos objetos.

Na hora da fissura, é importante não ficar parado: converse com um amigo, faça algo diferente, se distraia. Lembre-se que a vontade de fumar não dura mais do que alguns minutos. Deixar de fumar é um processo, portanto, mesmo que haja recaídas, mantenha seu objetivo. Encontre um motivo forte para deixar de fumar e reafirme-o para si próprio a todo momento. Se não souber, confira, por fim, os benefícios de parar de fumar:

Benefícios para a saúde

  • Após dois minutos, a pressão arterial e a pulsação voltam ao normal;
  • Após três semanas, a respiração se torna mais fácil e a circulação melhora;
  • Após um ano, o risco de morte por infarto do miocárdio se reduz pela metade;
  • Após cinco a dez anos, o risco de sofrer infarto será igual ao das pessoas que nunca fumaram;
  • Após vinte anos, o risco de contrair câncer de pulmão será igual ao das pessoas que nunca fumaram;

Benefícios Econômicos

Calcule o quanto um fumante gasta por mês ou por ano com a compra de cigarros e relacione o montante final com o que ele poderia fazer ou comprar;

Outros benefícios

  • Fortalecimento da auto-estima;
  • Melhora do hálito e do cheiro;
  • Melhora da coloração dos dentes e da vitalidade da pele;
  • Não ter que se preocupar se estará incomodando outras pessoas ao fumar;
  • Ter um melhora no desempenho de atividades físicas;
  • Estar contribuindo para redução aos danos ambientais;

Fotos: Getty Images