Câncer: entenda o que é a doença e saiba como lidar com o diagnóstico

Por Mariana Castro em 05/10/2017

A todo o momento, as células do corpo humano estão se renovando. O câncer nada mais é do que uma célula que se multiplica de forma desordenada, por algum defeito no gene protetor. Isso aumenta a população de células da região, formando um nódulo conhecido como tumor. Seus impactos na vida de quem sofre com a doença, entretanto, podem ter extensões muito mais amplas do que essa simples definição.

O tumor maligno, que gera o chamado câncer, é diferente do benigno por não respeitar a arquitetura das células e invadir outros tecidos do corpo. “Por isso, apesar do câncer ser um nome único, cada órgão tem suas particularidades em relação às causas, sintomas e tratamentos”, explica Robson Moura, presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC). Alguns sintomas são gerais, como a redução do apetite, o emagrecimento, fraqueza, indisposição e situações paraneoplásticas (como uma trombose, por exemplo, que leva ao diagnóstico de um determinado tipo de câncer).

Já os sintomas específicos variam de acordo com a região do tumor. “Convulsões, falta de ar e tosse acompanhada de sangue, por exemplo, podem ser sinal de câncer no pulmão”, alerta Fernando Moura, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Nódulo no pescoço e feridas na boca que não cicatrizam são sintomas gerais de câncer de boca, cabeça ou pescoço. No caso de câncer de estômago, o paciente pode sentir dor na região, náusea, vômito e secreções com sangue – sintoma comum para câncer no intestino, além de alteração nos hábitos intestinais.

“Em geral, o câncer acomete de forma parecida tanto homens quanto mulheres”, revela Robson. “Mas, ao olhar para cada tipo, os números podem ser bem diferentes”, completa.  No caso do câncer de mama, por exemplo, as mulheres são praticamente a totalidade dos casos. Nos homens, os mais comuns são próstata, pulmão e estômago. Mas, ao olhar para o panorama geral, o câncer de pele é o que tem a maior taxa, com 30% dos casos.

Causas e prevenção

Aproximadamente, 15 a 20% dos casos da doença têm origem genética. Portanto, é equivocado atribuir a maioria dos casos de câncer à predisposição hereditária. O restante se deve a fatores ambientais, que estão relacionados ao estilo de vida do paciente. O principal agente causador de morte no mundo é o cigarro, sendo 95% dos pacientes de câncer de pulmão, fumantes. Ele também aumenta o risco de tumor na laringe, estômago, esôfago, pâncreas e bexiga, assim como qualquer outro tipo de fumo inalado por carregarem diversos químicos cancerígenos.

Outras causas são infecções por bactérias, infecções virais – como o vírus HPV, que pode evoluir para um câncer de colo de útero –, exposição à radiação solar e questões alimentares, como dietas inflamatórias. “Alimentos muito quentes, acima de 60°C, podem contribuir para o câncer de boca e de esôfago”, alerta Robson. “Além disso, alimentos defumados ou salgados e carne vermelha em excesso podem levar ao câncer de intestino”, completa. O câncer de mama e de endométrio, em particular, são mais propícios em pessoas obesas. “Também é necessário ficar atento a fatores ocupacionais relacionados ao trabalho, como exposição a produtos químicos, pois podem levar a um processo de transformação celular crônica”, aconselha Fernando.

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Por tudo isso, a primeira medida de prevenção é evitar e se afastar ao máximo dos fatores de risco. “É importante estimular hábitos saudáveis, como uma alimentação balanceada, atividades físicas regulares e cuidado com a exposição solar”, adverte Fernando. O câncer de pele, por exemplo, pode ser prevenido evitando os raios ultravioleta, assim como o câncer de colo de útero é evitado com a vacina contra HPV e o uso de preservativos durante as relações sexuais. No mais, é preciso realizar exames específicos periodicamente a fim de detectar precocemente o desenvolvimento de um câncer.

Para mulheres acima de 40 anos ou com histórico familiar de câncer de mama, o autoexame e a mamografia devem ser realizados anualmente, assim como o exame de papa nicolau para as que têm vida sexual ativa a fim de prevenir a doença na região do colo uterino. “No caso dos homens, o exame Antígeno Prostático Específico (PSA) e o de toque retal previnem a evolução do câncer de próstata e devem ser realizados após os 45 anos, caso a pessoa não tenha um familiar direto com o diagnóstico”, indica Fernando. Pacientes tabagistas devem realizar a tomografia computadorizada, feita com baixa intensidade de radiação, para reduzir a mortalidade por câncer de pulmão.

Tratamentos

Quanto mais cedo o tumor é detectado no corpo, maiores são as chances de cura do paciente. Isso porque as células malignas podem não ter criado a capacidade de invasão para órgãos distantes. A metástase é algo muito comum em doenças avançadas, pois o tumor fortalecido consegue entrar no vaso sanguíneo e migrar para outros órgãos. “O câncer de mama em um estágio inicial tem 95% de chances de cura e o de estômago, por exemplo, 90%”, conta Robson.

Para o tratamento, normalmente, a associação de cirurgia, quimioterapia e radioterapia é a mais eficaz. A quimioterapia mata as células do corpo que têm como característica crescer de forma rápida – o que inclui as do cabelo, causando sua queda. Seus efeitos colaterais podem levar a anemia grave e infecção bacteriana provocada por imunidade baixa, por exemplo. Por isso, ao escolher um tratamento, é preciso avaliar os riscos e benefícios, pois todos têm pontos positivos e negativos.

A radioterapia consiste em um fecho de radiação emitido para provocar uma lesão no tecido, produzindo oxidantes que destroem as células doentes. Os tecidos ao redor da região do tumor podem sofrer com esse tratamento, mas cada vez mais ele é feito para atingir exclusivamente o tecido em que consta o câncer. “Existem ainda as opções de terapia endócrina, que são medicamentos para bloquear situações hormonais que estimulam o crescimento do câncer, e terapias locais, que são tratamentos direcionados por um aparelho para um nódulo maligno”, revela Fernando. “Mais recentemente, também começou a ser utilizada a imunoterapia, uma forma de tratamento que estimula o sistema imunológico a combater o próprio câncer”, completa.

Apesar do câncer ser um nome único, cada órgão tem suas particularidades em relação às causas, sintomas e tratamentos

As opções de tratamento disponíveis são categorizadas de três formas. O primário é o tratamento que visa à cura total da doença, como a cirurgia, por exemplo, que tem como objetivo remover o tumor por completo. Os tratamentos neoadjuvante e adjuvante buscam potencializar essa cura. “A quimioterapia pode ser considerada um tratamento neoadjuvante, sendo feita antes da cirurgia para maiores chances de sucesso, assim como adjuvante, para continuar o tratamento depois”, explica o Fernando.

O paciente que não tem chances de ser curado pode passar pelo tratamento paliativo, que é uma forma de melhorar sua qualidade de vida. No câncer de esôfago, por exemplo, uma opção para isso é colocar uma prótese para que o paciente consiga comer com mais facilidade. Além disso, podem ser feitas cirurgias para aliviar a dor, radioterapia para conter o sangramento e quimioterapia para diminuir a extensão da doença em geral.

No caso das doenças reversíveis, considera-se que o paciente está curado após o prazo de cinco anos do fim do tratamento. Durante esse tempo, é preciso fazer exames constantemente para detectar rapidamente caso haja uma recidiva do câncer.

Convivendo com o diagnóstico

Em paralelo ao tratamento médico, é recomendado que o paciente passe por um acompanhamento psicológico. O diagnóstico de câncer causa grande impacto na vida e na rotina do paciente por ser estigmatizado e estar associado a morte e sofrimento. Isso favorece a presença de sintomas de ansiedade e depressão, provocando uma piora na qualidade de vida dessas pessoas. “Através da terapia, é possível identificar e monitorar fatores de risco para esses transtornos psicológicos, além de promover um espaço em que o indivíduo possa falar sobre seus medos e angústias, ressignificar questões de vida e desmistificar fantasias relacionadas à doença e ao tratamento”, explica Carolina Zayat, psicóloga especializada em oncologia.

As estratégias utilizadas por um psicólogo em pacientes com câncer são, em linhas de gerais, de fortalecer estratégias para lidar com o momento e as dificuldades de adaptação. Uma dessas formas é trabalhar a relação com corpo e a autoestima, que muitas vezes é afetada pela queda de cabelo causada pela quimioterapia e pelas mudanças corporais devido a medicamentos ou procedimentos cirúrgicos. “Questões relacionadas a mudanças na rotina do paciente, como nos relacionamentos interpessoais e afastamento do trabalho, por exemplo, além do medo da morte, também são alvo do trabalho do psicólogo”, conta Carolina.

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Diante de uma doença como o câncer, toda a família é afetada, tanto na parte emocional quanto prática. “Por isso, também é recomendado aos familiares que busquem apoio profissional para lidar com a situação, já que ela pode promover tensões, mudança de papéis na família, preocupações e medo da perda do ente querido”, aconselha a psicóloga.

O suporte familiar é fundamental durante todas as fases do adoecimento, desde o diagnóstico e ao longo do tratamento. “A realização de atividades prazerosas, bem como o compartilhamento de tarefas e responsabilidades com o parente adoecido são estratégias que podem ajudá-lo no enfrentamento do câncer”, conclui Carolina.

Fotos: Getty Images