Automedicação pode contribuir para enxaqueca crônica, segundo especialistas

Por Mariana Castro em 31/08/2017

Sentir dor de cabeça é um mal comum. No entanto, essa é uma das dores mais incapacitantes que existem. A medicina já foi capaz de descobrir mais de 200 tipos dessa condição, sendo a enxaqueca um dos mais conhecidos. O problema interfere drasticamente na qualidade de vida e pode gerar inúmeras complicações. Muitas vezes, as pessoas que sofrem com isso perdem festas e outros eventos sociais e podem até ser consideradas desanimadas ou chatas.

A estudante Manoella Smith tem 21 anos e sofre de enxaqueca há seis anos. “Quando tenho muitos afazeres, fico com enxaqueca e, além de não conseguir sair, me torno incapaz de trabalhar e estudar”, conta ela. “Isso afeta a minha rotina e é muito frustrante”, completa.

A enxaqueca é uma dor geralmente pulsátil, que acomete um lado da cabeça e, quando muito forte, pode comprometer toda a cabeça. “Uma crise costuma durar de três a 72 horas, podendo vir acompanhada de náusea, vômito, tontura e intolerância à luz, barulhos, cheiros ou movimentos”, explica Alex Baeta, neurologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. No caso da estudante, além das dores e náuseas, ela ainda precisa lidar com um intenso cansaço físico durante as crises.

A enxaqueca é categorizada como uma dor de cabeça primária, uma vez que a própria dor de cabeça é a doença. No entanto, ela se torna secundária quando se origina de outras doenças, como sinusite ou meningite. Geralmente, a condição acomete adultos jovens, entre 25 e 40 anos. Isso está relacionado ao fato de ser o período em que há mais cobranças e estresse, mas ela pode surgir em qualquer idade.

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Diante de suas consequências, um paciente enxaquecoso passa a ter medo de entrar em uma crise. Isso faz com que ele tome remédios cada vez mais frequentemente, o que pode desencadear um quadro crônico ainda pior. “Na Academia Brasileira de Neurologia (ABN), usamos o termo ‘três é demais’. Ou seja, se você está tendo dor de cabeça e tomando analgésicos mais de três vezes por mês, está na hora de procurar ajuda profissional”, aconselha Celia Roesler, vice-coordenadora do departamento científico de cefaleia da ABN.

Diagnóstico e tratamento

Muitos pacientes acham que sofrem apenas de uma forte dor de cabeça, mas é preciso ficar atento pois isso pode alertar para um problema mais grave, como a meningite ou até um aneurisma. “Por isso, consideramos a automedicação tão perigosa, uma vez que os analgésicos podem mascarar um quadro mais sério”, alerta Celia. “Se a dor se tornar mais intensa ou aparecer após os 50 anos, é importante procurar um médico especializado”, completa.

Não existe um exame que prove que um paciente sofre de enxaqueca, mas o diagnóstico é feito através da análise do histórico clínico, que leva em conta a genética da família e a frequência e intensidade das dores da pessoa. “Isso é acompanhado de alguns exames físicos, que palpam a cabeça e observam o fundo dos olhos. Também é necessário checar a pressão arterial e realizar exames cefaliáticos e neurológicos”, explica Alex.

Se você estiver tendo dor de cabeça e tomando analgésicos mais de três vezes por mês, é recomendado procurar ajuda profissional

Para a condição, existem dois tipos de tratamentos. O abortivo visa cortar a crise, quando o paciente já se encontra enfrentando um quadro de enxaqueca. Isso é feito através do uso de remédios indicados por um médico especializado e que devem ser tomados no início da dor para que ela não chegue ao seu auge. O outro tipo de tratamento é o preventivo e utiliza medicamentos diários a fim de prevenir a crise. São remédios que, geralmente, não são manipulados especificamente para a dor de cabeça, mas que, tomados em doses menores, ajudam na prevenção da enxaqueca.

Podem ser usados antidepressivos, remédios para pressão arterial, para o coração ou para epilepsia, por exemplo. “O neurologista me receitou um antidepressivo, mas não continuei o tratamento por muito tempo pois era um remédio forte, que me deixava muito sonolenta pela manhã”, relata Manoella. Por isso, é fundamental fazer uma análise minuciosa do paciente para que o médico defina qual remédio e dose são mais indicados para ele.

Durante uma crise, além da medicação indicada, é recomendado repouso com compressas geladas, geralmente nas têmporas para contrair os vasos dilatados. “Após tomar o remédio, eu costumo deitar em um lugar escuro e silencioso”, conta Manoella. “Quando a dor começa, eu sei que se não fizer nada ela vai piorar e ficar insuportável”, desabafa.

Em crianças, o procedimento é semelhante ao de um adulto, mas costuma durar menos pois o organismo infantil responde rapidamente ao tratamento. “Além disso, é fundamental orientar os pais em relação a uma alimentação balanceada e às cobranças que eles depositam em seus filhos, pois eles podem se sentir pressionados e desencadear quadros de dor de cabeça”, orienta Celia.

Causa e prevenção

A enxaqueca é uma doença neurológica, geralmente genética, que acontece por uma disfunção química cerebral, ou seja, alterações em neurotransmissores, como a serotonina e a endorfina, por exemplo, que levam às crises. “A condição costuma se manifestar com mais frequência nas mulheres, devido a maior alteração hormonal”, explica o especialista da BP. “Por isso, é comum que ela comece após a primeira menstruação, melhore durante a gravidez e até sare após a menopausa”, completa.

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Algumas pessoas podem conter o gene da enxaqueca, mas nunca terem manifestado. Determinados gatilhos, entretanto, podem desencadear as crises, como estresse, cansaço físico, poucas ou muitas horas de sono, alimentação ruim, consumo de bebida alcoólica e o hábito de fumar. “Eu percebo que minhas crises estão relacionadas ao meu estado emocional e a minha alimentação”, relata a jovem paciente. “Comer alimentos pesados é um gatilho para a minha enxaqueca, além de estresse e crises de choro, por exemplo”, completa.

Por isso, é importante regular os horários de sono, praticar atividades físicas frequentemente e ficar atento à alimentação, uma vez que alguns produtos, como chocolate e queijo amarelo, por exemplo, podem desencadear a crise em quem é mais suscetível a ela. “O paciente enxaquecoso não pode sair da rotina, precisa estar sempre em equilíbrio, pois se dormir pouco ou dormir demais, por exemplo, pode acabar tendo enxaqueca”, aconselha a médica da ABN. Técnicas de relaxamento, acupuntura e ioga também são boas alternativas para prevenir e complementar o tratamento.

Tipos de enxaqueca

Poucas pessoas sabem que podem desenvolver dois tipos de enxaqueca: com aura e sem aura. A enxaqueca sem aura é a comum, na qual a dor vai se intensificando de forma progressiva e podem ser observados os sintomas já descritos. Na enxaqueca com aura, entretanto, o paciente pode ter alterações neurológicas, que começam de dez minutos a uma hora antes da manifestação da dor. Quando começam os sintomas de dor, ela já é muito mais intensa, pois não há o tempo de progressão.

Essas alterações podem ser visuais, levando a pessoa a enxergar bolas pretas, cobrinhas brilhantes ou, até mesmo, a perder o campo visual lateral, por exemplo. Elas também podem ser sensitivas, causando dormência, que começa na mão e pode atingir o braço todo até metade do rosto e da língua, sempre de um lado só. Essa dormência é progressiva, podendo ser distinguida de um acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo, que acontece de uma só vez.

“Para pacientes mulheres que apresentam a enxaqueca com aura, é recomendada uma orientação quanto ao uso de anticoncepcionais”, explica Celia. “A pílula, combinada com essa condição especial, aumenta o risco de trombose. Isso é triplicado quando as mulheres combinam os dois fatores com o uso de tabaco”, completa.

Fotos: Getty Images