Passo a passo para abrir o negócio próprio

Por Mariana Castro em 06/11/2017

O Brasil é um país culturalmente voltado para a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o que pressupõe que sua população é, desde cedo, ensinada a buscar um emprego com carteira assinada e que garanta estabilidade. Mas, isso vem mudando há alguns anos, uma vez que o fato de ter um emprego já não representa mais isso, necessariamente. Nesse contexto, o empreendedorismo vem se tornando uma tendência cada vez maior.

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Os jovens, inclusive, estão empreendendo desde cedo, mesmo os que ainda não entraram no mercado de trabalho. Isso demonstra que abrir um negócio tem sido cada vez mais uma possibilidade, já que não há idade ou perfil específico para tal. “O empreendedorismo não tem limites, é preciso apenas ter vontade”, acredita Ana Camile Pena, analista de negócios sênior do Sebrae-SP.

Nos últimos anos, com a crise econômica do país, muitos perderam o emprego e acabaram usando o conhecimento que já tinham para empreender. Eles foram empreendedores movidos pelas circunstâncias, que abriram um negócio para complementar a renda. Mas, existem diversos perfis de empreendedores. Alguns são mais conservadores, calculando riscos e fazendo planejamentos minuciosos antes de colocar a ideia em prática. Outros já são mais arrojados e são conhecidos por serem pessoas que estão constantemente buscando por novas aventuras, não têm medo de arriscar e não gostam de ficar por muito tempo no mesmo negócio.

Como escolher um negócio para empreender?

Para escolher o modelo de negócio ideal é fundamental não se distanciar dos seus interesses. “Muitos têm a ideia de que é importante ver o que está em alta e é bom no mercado, mas isso nem sempre vai ao encontro dos seus gostos e habilidades”, conta Ana. Escolher algo que dê brilho nos olhos ajudará o empreendedor a ter vontade e a criatividade necessária para estar sempre inovando. Além disso, a analista acredita que outros dois pontos são fundamentais: oportunidade e diferencial competitivo.

Para fazer uma boa escolha é necessário avaliar se há pessoas interessadas naquele produto ou serviço e se ele oferece algo que está faltando no mercado, a fim de atender a uma necessidade geral. “Isso não precisa ser, necessariamente, uma nova ideia. Mas é interessante procurar algo que destaque o seu negócio, que coloque o empreendimento à frente dos concorrentes”, aconselha Ana. “Afinal, negócios comuns são ofertados de forma comum”, completa.

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Outro questionamento que vem sendo levantado ultimamente é se vale mais a pena abrir um negócio físico ou virtual. “É equivocado acreditar que um negócio virtual terá um investimento e custo menor”, explica a especialista. “A diferença não é tão grande, pois o investimento é focado em coisas distintas”, completa. Um espaço físico, por exemplo, tem a vantagem de ser visto com mais facilidade e poder atrair mais clientes. No entanto, isso requer uma infraestrutura que demanda maior investimento.

Por outro lado, no negócio virtual, um grande investimento precisa ser feito na área de tecnologia e marketing, pois, além de colocar o site no ar, é preciso torná-lo atrativo para garantir o acesso dos usuários. “Na internet, a facilidade de pesquisar empresas com variedade de produto e qualidade, preço bom e entrega rápida, por exemplo, torna a concorrência muito maior”, alerta Ana. Por isso, em ambos os casos é preciso fazer um planejamento e análise de mercado.

Vale a pena ter um sócio?

Uma sociedade pode ter pontos muito positivos, começando por poder dividir as dificuldades do negócio. Às vezes, o empreendedor pode não ter todo o capital disponível e, com um sócio, consegue dividir as atribuições. Além disso, uma pessoa pode ser muito boa em uma área da gestão, mas não entender muito de outra. É o caso, por exemplo, de uma pessoa especializada em marketing que, no entanto, não domina a parte de finanças. “A sociedade por ser muito interessante quando um sócio complementa o outro, unindo conhecimentos e formando um time”, explica a especialista.

Mas, é preciso ter cuidado na hora de escolher um sócio, pois isso pode trazer problemas futuros. Quando há divergências de opiniões ou problemas financeiros na empresa, podem surgir dificuldades na gestão, o que sinaliza um dos pontos negativos da sociedade. Por isso, a melhor forma de escolher um sócio é entendendo seu objetivo dentro da empresa. “É preciso avaliar se você quer alguém para trabalhar junto com você ou alguém que financie o projeto”, sugere Ana Camile.

Se você escolher a primeira opção, é indicado buscar por pessoas que já estão no seu ciclo social e que você conhece, pois terá um contato mais próximo. Por outro lado, se você estiver buscando um investidor, a pessoa escolhida pode ser mais distante. “Nesse caso, é importante elaborar um plano de negócios que demonstre a viabilidade da ideia e que convença o sócio de que aquele investimento é atrativo”, aconselha a especialista.

Já sei qual será o meu negócio. E agora?

O principal erro de um empreendedor é a falta de planejamento. Por isso, um passo fundamental é fazer um plano de negócios para avaliar se ele é viável financeiramente. “Também é preciso analisar o mercado, entender o potencial cliente e seus concorrentes, além de fazer um aprofundamento técnico e profissional”, indica Ana Camile. Após ter passado por todo esse preparo inicial, o empreendedor deve ir atrás da obtenção de crédito para abrir seu negócio.

Todos os bancos públicos e privados trabalham com linha de crédito para apoiar micro e pequenas empresas. Por haver um incentivo governamental de apoio, os bancos públicos têm variedades que tornam algumas taxas mais atrativas. Mas, a recomendação é que o empresário pesquise e vá até as instituições para uma reunião, pois cada uma apresentará um pacote de serviços diferente. É preciso conferir ainda a lista de requisitos para a concessão do crédito, que depende da prática do negócio e da necessidade do empresário. “Não deixe de comparar a taxa de juros, pois pode haver uma grande variação entre elas, inclusive no mesmo banco em períodos diferentes”, sugere a analista.

Um empreendedor precisa estar ciente de que o Brasil é um país extremamente burocrático e que terá que passar por algumas etapas para que a empresa seja regulamentada. Antes de mais nada, o empreendedor terá que procurar a prefeitura para consultar a lei de zoneamento, que dirá se ele pode ou não abrir um negócio no local desejado.

O principal erro do empreendedor é a falta de planejamento

Existem diferentes modalidades de forma jurídica para abrir um negócio. Uma delas é o microempreendedor individual (MEI), que tem o procedimento mais simplificado. Nesse caso, os custos e impostos são menores. Depois de conferir a lei de zoneamento, os outros procedimentos são feitos através do portal do empreendedor, ao qual, ao menos em São Paulo, a prefeitura está interligada. Desta forma, basta fazer um cadastro e seguir os passos.

Nos demais casos, ainda é importante o auxílio de um profissional contábil para esse fim. “É preciso verificar se a prefeitura exige algum tipo de regulamentação da atividade”, explica Ana. “Por exemplo, se for algo no ramo da alimentação, é exigida a regulamentação por parte da vigilância sanitária”, completa. Após a consulta desses detalhes específicos, o primeiro ato constitutivo é na junta comercial do Estado, seguido de cadastros na Receita Federal, na Secretaria da Fazenda, na Prefeitura do município e no INSS. “Por fim, é preciso verificar se o setor têm algum sindicato que o represente para realizar o cadastro lá também”, revela a analista. “Caso a atividade seja intelectual ou regulamentada, também é necessário obter registro no órgão que a representa”, acrescenta ela.

Ter uma empresa não é só alegria, uma vez que exige muito trabalho. Não adianta contar com o cenário de hoje, por exemplo, pois ele está em constante transformação. Por isso, a busca por informação e aprimoramento é eterna. “Mas, quando a pessoa vê os resultados daquilo que idealizou e que, apesar do medo de começar, ela percebe que conseguiu ganhar dinheiro com suas ideias, o sentimento é muito gratificante”, conclui Ana Camile.

Fotos: Getty Images