Problema auditivo pode prejudicar o aprendizado das crianças na escola

Por Mariana Castro em 11/04/2017

Falta de concentração, desinteresse, hiperatividade, baixo rendimento escolar e isolamento social são comportamentos vistos em muitas crianças e que podem levar a diagnósticos de Dislexia ou de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O que muitas pessoas desconhecem é que esses sintomas também podem ser consequência de outro tipo de distúrbio, ainda pouco conhecido, mas que pode estar afetando milhares de brasileiros sem que eles saibam.

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Chamada de Desordem do Processamento Auditivo Central (DPAC), a condição se trata de um problema auditivo reconhecido pela medicina há apenas 15 anos e, por isso, ainda pouco diagnosticado pelos médicos. O transtorno afeta a capacidade de compreensão dos sons e pode prejudicar o desenvolvimento intelectual desde a infância. A criança ouve normalmente, mas não consegue interpretar o que ouve. É como se as palavras e demais sons fossem apenas ruídos.

“A criança ou adolescente com DPAC não consegue detectar a localização e amplitude dos sons e não reconhece ou não compreende o significado de cada ruído presente no ambiente. Com isso, o mundo se transforma em uma incômoda confusão de barulhos desconexos e embaralhados”, explica Marcela Vidal, fonoaudióloga da Telex Soluções Auditivas. A fala e a leitura também são prejudicadas, uma vez que o processo de linguagem se desenvolve ao mesmo tempo em que o processo de audição é desenvolvido. Com isso, a criança pode não aprender a falar e a ler bem, uma vez que é necessário associar as palavras ao som que elas têm.

Além disso, de acordo com neurologistas, o esforço para entender o que acontece ao redor sobrecarrega o cérebro, que chega a “desligar”. Por isso, pessoas com DPAC são distraídas e perdem o foco de atenção muito rápido. A maioria das crianças são diagnosticadas na fase de alfabetização, uma vez que o aluno começa a apresentar dificuldades na memória de curto prazo, falta de entendimento, pouca concentração e incapacidade de leitura e escrita.

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“É de extrema importância que o diagnóstico seja efetuado o quanto antes para que as dificuldades no aprendizado sejam superadas mais facilmente. O cérebro humano tem, principalmente durante a infância, uma grande flexibilidade. Com o tratamento fonoaudiológico e o apoio de uma equipe pedagógica adequada, a criança tem grandes chances de obter um ótimo desempenho escolar, pois seu cérebro estará sendo treinado para desenvolver mecanismos diferentes e rotas alternativas para driblar o distúrbio”, afirma a fonoaudióloga, que é especialista na área de audiologia infantil.

Ainda não se sabe ao certo o que gera a DPAC, mas acredita-se que a falta de estímulos sonoros durante a infância seja uma das causas. As estruturas do cérebro que interpretam e hierarquizam os sons se desenvolvem até os 13 anos. Nesse período, o cérebro está interpretando e hierarquizando os sons. Desta forma, as notas musicais, palavras e barulhos do dia a dia vão ensinando o cérebro a lidar com a audição.

Além disso, crianças com lesões ou inflamações frequentes no ouvido podem desenvolver o transtorno, uma vez que tais enfermidades impedem o cérebro de receber adequadamente estímulos sonoros. Doenças neurodegenerativas, rubéola, sífilis e toxoplasmose ou mesmo alcoolismo e dependência química durante a gravidez também podem causar o distúrbio nos filhos.

Dicas para cuidar de crianças com DPAC

  • Ambientes barulhentos prejudicam ainda mais a concentração das crianças com DPAC. Por isso, é preciso manter o silêncio na hora do estudo, tanto na escola quanto em casa
  • É aconselhável que, na escola, a criança se sente o mais perto possível do professor e fique afastada de portas e janelas, a fim de evitar ruídos
  • Deve-se procurar falar de forma clara e pausada, de frente para a criança e, sempre que possível, fornecer as instruções e atividades bem próximo a ela
  • A criança deve ser incentivada pelos pais e professores durante o processo de aprendizagem para melhorar nos estudos e aumentar a sua autoestima

Foto: Getty Images