Amigos do Vinho

Fundada em 1980, a SBAV/SP - Associação Brasileira dos Amigos do Vinho é a primeira confraria formal de vinhos do Brasil. Seu objetivo é incentivar a cultura do vinho e difundir conhecimento sobre a bebida por meio de cursos, degustações, viagens e eventos

O Julgamento de Paris

Napa Valley

Napa Valley, região que concentra algumas vinícolas na Califórnia

O “Julgamento de Paris” é como ficou conhecida uma degustação de vinhos norte-americanos e franceses realizada no Hotel Intercontinental de Paris, na tarde de 24 de maio de 1976, organizada por Steven Spurrier. A idéia dele era aproveitar as comemorações do bicentenário da independência dos EUA para divulgar os vinhos norte-americanos, até então totalmente desconhecidos para o público francês, promovendo ao mesmo tempo a sua loja de vinhos, a “Caves de la Madeleine”.

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Alguns vinhos franceses foram incluídos apenas para mostrar que os vinhos californianos não estavam tão atrás assim em termos de qualidade, mas o resultado da degustação, um evento despretensioso e coberto apenas pelo repórter da revista “Time”, George Taber, foi uma surpresa tão grande que virou livro e entrou para a História do Vinho.

A degustação foi às cegas, mas todos esperavam que os degustadores tivessem facilidade em reconhecer os vinhos franceses, considerados na época muito superiores a todos os outros vinhos do mundo. Não foi bem assim. Logo no início da prova, os organizadores começaram a perceber que os jurados faziam comentários totalmente equivocados sobre a origem dos vinhos, elogiando os vinhos americanos e criticando os franceses achando que estavam fazendo o contrário.

Quando o “Château Montelena”, da Califórnia, foi anunciado como vencedor entre os brancos, todos ficaram espantados, especialmente ao saber que os vinhos franceses superados estavam entre os melhores da França, como “Mersault-Charmes Roulot” e o “Bâtard-Montrachet Ramonet-Prudhon”. Entre os tintos, nova vitória da Califórnia, com o “Stag’s Leap Wine Cellars S.L.V.” superando o “Mouton-Rothschild”, o “Haut-Brion” e o “Montrose”.

O mundo do vinho ficou assombrado, o que transformou aquela degustação comum num evento mundial. O “Julgamento de Paris” foi repetido outras vezes: em 1978, em San Francisco; em 1986, em Nova York; e em 2006, no aniversário de 30 anos da prova, em Londres e na Califórnia, simultaneamente. Em todas elas, porém, o resultado foi semelhante: vantagem cada vez maior dos vinhos americanos, mesmo depois de envelhecidos. Isso levou os especialistas a duas conclusões: a primeira é que os vinhos franceses podem ser superados pelos vinhos de outras partes se forem produzidos com esmero, dependendo apenas de uma mistura de talento, recursos adequados (naturais e técnicos) e uma dose de sorte. A segunda é que, em degustações às cegas, existe um estilo de vinhos (encorpado, aberto e amadeirado) que se dá melhor do que outros, porque chama a atenção e domina o olfato e o paladar do degustador. É o caso dos vinhos norte-americanos, hoje em dia feitos propositadamente nesse estilo, para ganhar provas, prestígio e encomendas.

Os franceses temiam que o resultado do “Julgamento de Paris” representasse um desastre para o mercado do vinho francês. Se os consumidores se convencessem de que os vinhos franceses não eram mais os melhores, para que pagar mais por eles? Mas o fato é que isso não aconteceu, ao contrário, todos ganharam com o evento. Os vinicultores do Novo Mundo, não só da Califórnia, ganharam uma enorme divulgação e valorização dos seus produtos; os jurados da prova original ganharam um impulso em suas carreiras pela celebridade adquirida, incluindo Spurrier, atualmente conferencista, escritor e colunista da mais importante revista britânica de vinhos, a “Decanter”; e os vinicultores franceses ganharam a certeza da necessidade constante de desenvolvimento e investimentos. Apesar de terem decepcionado, também obtiveram uma divulgação espetacular, que multiplicou a demanda e os preços de seus vinhos, mais do que os de qualquer outra parte do mundo, nas últimas décadas.

(Por Sergio Bonachela – associado e colaborador da SBAV/SP)

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